Máscara

    Na busca por recuperar a segurança perdida diante das situações dolorosas que a vida impõe, a criança aprende que, cumprindo determinados requisitos, o ambiente responderá positivamente aliviando temporariamente parte de sua angústia. Todos nós descobrimos que se formos suficientemente amorosos, fortes, bons, inteligentes, comportados, etc. seremos recompensados com a aceitação, reconhecimento, aprovação daqueles que nos rodeiam. Ao mesmo tempo, descobrimos que a expressão daquilo que é considerado indesejável pelo o ambiente resultará em castigo, punição e infelicidade. Na infância uma das maiores ameaças à integridade psíquica da criança é a retirada de afeto dos pais. Neste sentido, ser “perfeito” ou “bom” torna-se questão de sobrevivência. A criança acredita que, dessa maneira, poderá garantir a continuidade dos vínculos com aqueles de quem sua vida depende.

 

    Passamos então, desde cedo, a controlar, reprimir e ajustar impulsos, sentimentos, sensações, pensamentos e desejos considerados ameaçadores, ao mesmo tempo em que nos esforçamos por atingir um ideal de comportamento tido como adequado para o ambiente em que vivemos. Neste processo, bloqueamos a expressão autêntica de nosso ser e nos empenhamos em criar um eu de fachada, idealizado, artificial, irreal pautado por um padrão de perfeição extremamente exigente. Na Core Energetics, esta parte da personalidade é designada pelo conceito de Máscara.

 

    Todos nós possuímos diversas máscaras para lidar com a vida, para esconder partes de nós mesmos que consideramos indesejáveis, assustadoras, feias, imorais, pervertidas, ridículas, etc. Nossas máscaras são tentativas de convencer ao mundo e a nós mesmos que nós correspondemos a nossas imagens idealizadas de amor, inteligência, poder, etc. Estes “personagens” que mostramos ao mundo constituem de padrões específicos de pensamento e crença, formas rígidas de lidar e expressar nossos afetos. São modos de ser que operam de maneira estreita, inflexível, respondendo à vida de forma compulsiva e reativa, sem espaço para criatividade. A máscara representa um movimento forçado por ser algo. Uma não aceitação daquilo que existe no aqui e agora e, principalmente, uma não aceitação de nossas imperfeições.

 

    Obviamente que não podemos viver nossas vidas em total estado de autenticidade. As relações do dia a dia exigem que usemos algumas de nossas máscaras e elas nos são úteis em diversos momentos. O problema começa a existir quando, mesmo quando queremos, não conseguimos nos desvencilhar de nossas máscaras. Ou pior ainda acontece quando nós começamos a acreditar que somos as máscaras que apresentamos ao mundo e perdemos a conexão com nossos sentimentos reais e profundos.

 

    A máscara se manifesta não apenas na dimensão psicológica, mas está presente também nos níveis corporal, emocional, mental, etc. Basicamente, as defesas da máscara bloqueiam ou rebaixam o fluxo de energia-consciência em todas estas dimensões. Restringimos nosso nível de consciência e nosso fluxo energético para não entrarmos em contato com tudo aquilo que consideramos, consciente ou inconscientemente, uma ameaça à nossa identidade e integridade. Ao funcionar nestes níveis reduzidos de energia, restringimos nossas possibilidades de experimentar a vida e responder às situações com criatividade e espontaneidade. Nesta camada dura e cristalizada de nossa personalidade, a vida e as relações perdem seu fluxo, sua vitalidade.

 

    O processo psicoterapêutico permite que, pouco a pouco, o ego do cliente se fortaleça a tal ponto que ele tenha segurança e energia suficientes para se identificar com seu mundo interno. Assim, a estrutura de defesa das máscaras pode ser flexibilizada. Este processo amplia a capacidade de identificação e aceitação dos aspectos negativos da personalidade, que, por sua vez, permite ao cliente viver experiências de entrega à espontaneidade de seu eu real.