Grounding

“Sejas forte, então, e entra em teu corpo;

lá encontrarás um sólido apoio para teus pés.

Pense cuidadosamente sobre isso!

Não te escapes em direção a alguma outra parte!

Kabir disse: afasta de ti todos os pensamentos vinculados a coisas imaginárias,

e firma-te naquilo que és.”

Robert Bly

(O Livro de Kabir)

 

    O termo Grounding é um conceito chave na Core Energetics. Ele pode ser entendido a partir da ideia de enraizamento ou aterramento. Diz respeito à capacidade que nós temos de fazer um contato seguro com a realidade interna de nós mesmos e com a realidade externa do mundo. Só podemos nos sentir seguros para fazer este contato quando nosso Self está enraizado firmemente em uma base sólida, que nada mais é do que o nosso próprio corpo. Ou seja, fazer contato consigo mesmo significa ter segurança para sentir, habitar e se entregar ao corpo, entrando em contato com tudo aquilo que flui através dele: as sensações, sentimentos, impulsos e movimentos.

 

    O corpo é a materialização mais concreta de nossa presença no mundo, é a nossa realidade mais básica, tangível, sólida, palpável. Corporalmente, a sensação de contato entre os pés e o chão representa o contato do indivíduo com as realidades básicas de sua existência. Quanto maior o fluxo energético de excitação e vibração que passa pelas pernas e pés em direção ao solo, maior é o contato que temos com o chão. Quando isso acontece, temos os pés plantados na terra, em contato com nós mesmos e com a realidade que compartilhamos com aqueles que nos rodeiam.

 

    As primeiras experiências do bebê e da criança são decisivas na estruturação de um grounding pessoal. Quando o bebê encontra um ambiente acolhedor, que pode suprir suas necessidades de forma relativamente adequada, ele desenvolve um senso de confiança no mundo, na vida, nos outros e em si mesmo. As falhas ambientais neste processo de amadurecimento podem produzir, não somente uma insegurança em relação ao mundo, mas também uma insegurança em relação ao contato com o próprio corpo. Todos nós vivenciamos algum tipo de falha neste processo de desenvolvimento do grounding. Além do mais, a forma com que levamos a vida em nossa sociedade faz com que nos desconectemos cada vez mais de nossos corpos. As rotinas de trabalho exaustivas e estressantes, a valorização do uso da mente numa excessiva racionalização da vida, e, mais recentemente, o contato cada vez maior com as realidades virtuais proporcionado pelas novas tecnologias são elementos que contribuem para este distanciamento.

 

    Quando este enraizamento não é estabelecido de forma satisfatória, tememos e evitamos, ainda que inconscientemente, os movimentos involuntários que fluem naturalmente em nossos corpos, assim como o mundo e os outros são vistos como ameaçadores. Todos nós fazemos isto em alguma medida quando vivemos a partir de nossas fantasias e idealizações, “andando nas nuvens”, no “mundo da lua”; ou em uma excessiva racionalização, nos segurando em nossa própria rigidez e autocontrole; ou mesmo sustentando-nos em relações de dependência, sem conseguirmos “andar com as próprias pernas”, etc.

 

    Considerando que todos os nossos conflitos psicológicos se relacionam, de uma maneira ou de outra, com uma desconexão com a realidade interna e externa, percebemos o quão importante é o desenvolvimento de um grounding firme. O processo terapêutico corporal tem como foco o contato cada vez maior do cliente consigo mesmo e busca o fortalecimento desta base de sustentação de várias formas. Nesta perspectiva, a realização de exercícios físicos específicos que promovam um maior fluxo energético no corpo, em especial nas pernas e pés, é uma das grandes ferramentas de enraizamento na psicoterapia em Core Energetics. Gradualmente, este processo permite que o cliente se sinta mais seguro e confiante para lidar consigo mesmo e suas questões e, dessa forma, ocupar seu lugar no mundo, na família, na sociedade, de forma independente e autônoma.