Eu Inferior (Lower Self)

"Quanto mais aceitamos nosso ódio, menos odiamos.

Quanto mais aceitamos nossa feiúra, mais bonitos nos tornamos."

John Pierrakos

 

 

    Todos nós possuímos algumas partes de nós mesmos que procuramos esconder do mundo. Dentre os diferentes aspectos de nossa personalidade que ocultamos por debaixo de nossas máscaras, um deles ganha destaque: a destrutividade. Apesar de tentarmos mantê-la em segredo e escondida, inclusive de nós mesmos, todos nós possuímos uma parte destrutiva que acaba por causar sofrimento para nós mesmos e para os outros.  São pensamentos, sentimentos, impulsos relacionados ao ódio, crueldade, insensibilidade, medo, isolamento, autoboicote, sentimentos de superioridade, negatividade, resistência, etc. Eles existem e atuam muitas vezes de maneira indireta, a despeito de nossa vontade consciente. Na Core Energetics, estes elementos são designados como Eu Inferior (Lower Self).

 

    O eu inferior, em essência, é uma desconexão com nossa realidade mais profunda. Ele se manifesta nas diversas formas de negação do fluxo da vida, da expansão e do prazer. Em geral sua expressão não é direta, mas sutil, nos mantendo em um estado de isolamento e de quebra da conexão em relação a nós mesmos, aos outros e ao mundo. O eu inferior está em atuação, por exemplo, quando inconscientemente sabotamos nosso próprio bem estar, quando, ainda que de forma camuflada, impomos ou nos submetemos a relações de poder e violência, quando nos insensibilizamos em relação à dor do outro e à nossa própria dor, etc.

 

    Quando evitamos entrar em contato com o eu inferior, estamos apenas empurrando a sujeira para debaixo do tapete. A repressão de nossa crueldade não faz com que ela desapareça. De fato, qualquer elemento de nossa psique ao qual negamos o reconhecimento, irá se manifestar de maneiras tortuosas, indiretas e destrutivas. Apartando estes elementos de nossa consciência perdemos nossa capacidade de lidar com eles e, eventualmente, transformá-los. Quando vive em nossas sombras, de forma camuflada, o eu inferior atua de maneira indireta, porém não menos destrutiva, pois tem a proteção de nossas máscaras. Muitas das maiores manifestações sombrias da humanidade foram perpetradas por pessoas que acreditavam estar fazendo o bem, cegas pelas justificativas de suas máscaras. Atos racistas, misóginos, xenófobos são muitas vezes realizados em nome de deus, da paz, da ordem, do desenvolvimento, etc. Em um nível pessoal e coletivo, a destrutividade do eu inferior é diretamente dependente do grau de afastamento que estes aspectos estão em relação à consciência.

 

    Quando podemos reconhecer e aceitar nosso lado destrutivo, encarando-o com coragem e honestidade, abrimos também a possibilidade para a sua transformação. Neste sentido, o processo de transformação do eu inferior passa, necessariamente, por seu reconhecimento e aceitação. Tirar o eu inferior das sombras da inconsciência e trazê-lo para o campo aberto de nossa consciência, permite que eventualmente possamos nos desidentificar destes aspectos e deixemos de ficar sobre seu controle. Assim, podemos conhecê-los mais detalhadamente e lidar com eles de forma realista.

 

    Quando observamos de forma mais minuciosa, com aceitação, sem julgamentos morais ou condenações, percebemos que os sentimentos negativos, em essência, não são ruins ou errados. Num nível mais profundo, o eu inferior é apenas uma forma distorcida de defesa contra a dor. Essencialmente ele é uma distorção de correntes de afirmação da vida, que são naturais em si mesmas. Neste sentido, ele também é uma força poderosa e criativa. Quando enfrentamos e reconhecemos sua destrutividade dentro de nós, podemos resgatar seu poder criativo e direcioná-lo para expressões positivas em nossas vidas. Neste caso, o manejo do eu inferior não significa simplesmente a sua repressão, mas uma verdadeira transformação desta distorção. Deste modo, a vitalidade e força que estavam empregadas em mantê-lo encoberto poderão ser empregadas pelo ego de maneira construtiva, potente e direta. À medida que podemos revelar cada vez mais aspectos escondidos de nós mesmos, a vida se torna mais interessante, conquistamos um senso de autenticidade e vitalidade cada vez mais profundo.